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Precisamos proteger nossos atletas


A Federação Americana de Ginástica Artística está envolvida em um dos maiores casos de crimes de pedofilia dos Estados Unidos. Lary Nassar, médico da seleção americana de ginástica por mais de duas décadas, está preso e aguarda julgamento.

Impulsionada pelo movimento "Me too" (significa "eu também"), que estimula mulheres no mundo todo a denunciarem seus agressores sexuais, a ginasta Tatiana Gutsu desabafou e expôs um abuso de 27 anos atrás em seu Facebook pessoal, abuso cometido pelo ex-ginasta estrela Vitaliy Sherbo, companheiro de equipe e detentor de seis medalhas de ouro olímpicas em uma única edição dos Jogos em 1992, Barcelona. Segundo Gutsu, o abuso aconteceu durante a Copa do Mundo de Stuttgart, Alemanha, em 1991, e o crime foi acobertado por outros dois ginastas: Rustam Sharipov e Tatyana Toropova.

E hoje foi a vez de McKayla Maroney, medalhista olímpica e mundial americana, se pronunciar a respeito dos abusos que sofreu, inclusive, durante os Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Os abusos aconteceram desde quando ela tinha 13 anos. Maroney foi uma das estrelas da ginástica americana que teve coragem de se expor (varias outras ginastas internacionalmente conhecidas ainda não tiveram essa coragem) e fortalecer a denúncia contra o médico Larry Nassar, que chegou a dar uma pílula para ginasta dormir e acordar no quarto de hotel do médico sozinha e vulnerável.

Mais de 300 denúncias contra a entidade e membros da Federação Americana de Ginástica nos últimos 20 anos foram publicadas no Jornal Indianapolis Star, mostrando que pelo menos quatro membros da Federação ignoraram suspeita de abusos de treinadores com atletas e não passaram o caso para as autoridades competentes.

Após a publicação, a USA Gymnastics começou um processo investigatório particular, que resultou em 70 recomendações para a Federação, que concluiu, também, que esta falhou em muitos aspectos relacionados aos crimes: a Federação não comunicou às autoridades da lei sobre as alegações de abuso feitas pelos ginastas e seus responsáveis; não tinha um protocolo concreto de abordagem dessas reclamações; não rastreou os criminosos que foram denunciados e despedidos dos clubes de origem e acabaram sendo empregados por outros clubes e cometendo mais abusos.

A recomendação mais importante feita após o processo investigatório foi que a Federação reporte imediatamente qualquer reclamação às autoridades competentes. "A segurança de inúmeras jovens ginastas em todo o país depende da capacidade da Federação de efetuar essa mudança cultural", disse a ex-promotora federal e responsável pela investigação Deborah Daniels. "A Federação deveria focar na segurança dos atletas - não apenas em ganhar medalhas".

O retrato da situação atual nos Estados Unidos abre os nossos olhos para nossa própria realidade: o que nós - treinadores, atletas, auxiliares, árbitros, chefes de delegação, presidentes de federações, Confederação Brasileira de Ginástica e, por fim, Comitê Olímpico Brasileiro - estamos fazendo para reduzir os riscos de casos graves como esse acontecerem - ou continuarem acontecendo - no Brasil?

Por conta do sigilo judiciário, nada se sabe a respeito do andamento da acusação de abuso sexual feita contra o ex-treinador da seleção Fernando Carvalho. A Confederação Brasileira de Ginástica, na época, afastou o treinador da seleção e dos compromissos em campeonatos. Mas só isso basta? O que mais foi feito?

Denúncias devem ser reportadas e as instituições devem auxiliar nas investigações, doa a quem doer. Não é porque o treinador é bom ou tem nível técnico elevado que as medalhas e treinamento tem que ser priorizados. Abuso sexual é grave! Devemos parar de agir como se o problema não fosse nosso, como se o caso fosse só da polícia. O mínimo que devemos fazer é reportar e auxiliar na punição dos culpados. Esse foi um dos grandes erros da ginástica americana: os treinadores, famosos por suas conquistas, eram aceitos em novos clubes; levavam tanto os conhecimentos técnicos como suas atrocidades pessoais.

Pior ainda é quando um ginasta é o agressor e é acobertado. Por quê? São as chances de medalhas? Vale a pena acobertar um criminoso por suas chances de medalhas? Abuso de incapazes também é crime. Homens e mulheres, mesmo em idade adulta, que estão sob efeito de álcool ou drogas, estão em situação de incapacidade e, portanto, não estão aptas a decidirem com a coerência necessária. Estupro de vulnerável: quando a vítima não é capaz de defender-se.

Onde tem fumaça tem fogo. Quando existem piadinhas, historinhas, mal falados, brincadeiras com fundos de verdade, é quando devemos ficar atentos: na maioria das vezes tem algo maior por trás. Vale a pena investigar, ficar de olho, educar, reportar e auxiliar em tudo que puder. Não ignorem as suspeitas.

Atualmente não se sabe se a dirigência da ginástica e do esporte brasileiro adotou uma postura de regras e prevenções educativas sobre abusos sexuais. Uma coisa é fato: a tolerância deve ser zero. Não dá para fechar os olhos para as pequenas coisas que "de vez em quando" aparecem e deixar virar uma bola de neve como aconteceu nos Estados Unidos. Na dúvida não há dúvida: como na arbitragem, favoreça sempre o ginasta, mas favoreça o ginasta agredido.

Muitos podem julgar esse post mais um texto "polêmico" do Gym Blog Brazil, que ao invés de ajudar vai colocar preocupações nos pais de ginastas que lerem o texto. Tenho uma resposta: certo é certo, errado é errado. Verdade sempre vai ser verdade. Quem age corretamente não tem o que temer: contra boas posturas e integridade de caráter não há julgamentos. Seja um clube, um treinador, um chefe ou um médico de exemplo, íntegro, correto e verdadeiro. Dessa forma, a tranquilidade de quem te acompanhar será sempre afamada ao invés de denegrida.

Maroney, em sua carta de desabafo postada nas redes sociais, postou algumas medidas que, na opinião dela, deveriam ser tomadas em casos como esse:

1 - deve-se falar e sensibilizar sobre o abuso (ou suspeita do abuso) que está acontecendo;

2 - pessoas, instituições, organizações, especialmente aquelas em situações de poder, precisam ser responsabilizadas por suas ações e comportamentos inapropriados;
3 - educação e prevenção, não importa o quanto isso custe;
4 - tolerância zero para os agressores e para as pessoas que os protegerem.

Muitas vezes não conhecemos os sentimentos mais profundos de quem amamos e convivemos de forma tão próxima... O que dizer de um amigo distante ou de pessoas que nem temos tanto contato? O agressor sabe escolher a sua vítima e nunca vai escolher a mais forte. Ele sempre vai escolher aquela que vai ficar em silêncio pra sempre.

Falem, por favor.

#Metoo

Post de Cedrick Willian
Foto: Divulgação

Roger Medina fala ao GBB: "Não existe a palavra arriscar"


Depois da final de hoje, Roger Medina falou ao GBB.

GBB - A Thaís começou na trave, que era uma prova chave pra ela. Se ela tivesse acertado essa prova, isso mudaria a estratégia de vocês pro restante da competição? Porque ela não fez o salto mais difícil, e também substituiu a saída da paralela, fazendo apenas o duplo grupado. Se ela tivesse acertado e conseguido uma boa nota, vocês iriam arriscar as provas mais difíceis?

RM – Na verdade não existe a palavra “arriscar”. Quando a gente pede pra uma ginasta fazer um exercício é porque ela sabe, treinou muito e é algo sustentável. Significa que ela sabe fazer. Então a gente não arrisca nada, nós usamos uma estratégia: a partir do momento que ela cravasse trave e solo, provavelmente nós teríamos dado continuidade a esse desenvolvimento até chegar nas paralelas.

GBB - A nota do solo, mesmo com um erro grande na segunda passada, foi a sexta maior do dia: um 13,566 que poderia ter passado dos 14 pontos. Para a final essa vai ser a prova que ela vai apresentar ou você quer tentar aumentar na nota de dificuldade com um giro ou salto ginástico mais difícil que ela já apresentou em competições esse ano?

RM – Hoje ela teve uma falha grande na segunda diagonal de quase 0,7, mas o conjunto da série foi melhor, talvez ela até conseguiria atingir os 14,200. Com relação aos elementos mais difíceis, em função de alguns fatores ela não está fazendo agora, a prova da final será a mesma que ela apresentou hoje.

Entrevista de Diego Aguiar
Foto: Ivan Ferreira / Gym Blog Brazil / MeloGym

Finalistas mundiais


Em um Mundial cheio de surpresas desagradáveis também define-se finalistas. Pode não ser da forma como nós, fãs de ginástica, gostaríamos, mas o show tem que continuar. E, terminada as classificatórias, amanhã começa as finais e disputas por medalhas.

Talvez a emoção nesses dois próximos dias seja um pouco menor do que o esperado. Isso porque os dois melhores "all arounders" do ano - Kohei Uchimura no masculino e Larisa Iordache no feminino - foram impedidos de competir por conta de lesões: uma situação completamente chata, inesperada e alheia à vontade dos atletas. Entretanto, abrem-se maiores possibilidades para outros ginastas e, possivelmente, uma disputa mais acirrada.

Na final individual geral é quase impossível fazer uma previsão dos campeões mundiais dado o número de competidores lesionados ou que erraram nas classificatórias. Isso deixou o mundial "em aberto", onde a disputa vai ser ponto a ponto por cada medalha nessa final. Nas finais por aparelhos masculinas, realmente temos um favorito em cada final, mas na feminina tudo pode acontecer.

No masculino, o individual geral será uma disputa entre o cubano Manrique Larduet e o ucraniano Oleg Verniaiev. O chinês Xiao Ruoteng e o russo David Belyavskiy também entram no jogo de "quem errar menos leva". Kenzo Shirai chega absoluto no solo e, como no pós olímpico de 2013, está extremamente acima de seus adversários. Max Whitlock continua forte e limpíssimo no cavalo com alças e o talento fresquinho de Weng Hao é o que mais se aproxima do britânico. Nas argolas, o campeão olímpico Petrounias mantém a superioridade brilhando na execução. Retornando ao cenário internacional, Hak Yang Seon tem tudo para levar o ouro no salto. A paralela continua dominada por Verniaiev e a barra fixa por Zonderland.

No feminino, Ragan Smith e Murakami travaram uma batalha classificatória que foi diferenciada por um centésimo. Será que a final individual geral do pós-olímpico de 2005, quando Chellsie Memmel e a Nastia Liukin foram ouro e prata também separadas por um centésimo, foi um presságio? Essa final será disputadíssima e até Thais Fidelis, se saltar o yurchenko com dupla pirueta, entra fortíssima contra as cinco primeira colocadas na disputa por uma medalha individual geral. No salto, a russa Maria Paseka continua com chances apenas por conta da dificuldade que apresenta, porque a execução realmente não é agradável. Nas assimétricas, Elena Eremina tem fortes concorrentes nessa final que será disputadíssima, mas sua série é extremamente limpa e um primor de assistir. Na trave... vamos pular essa parte e dar os parabéns para as meninas que conseguiram ficar em cima do aparelho. O solo será a final mais interessante: uma brasileira de volta à final depois de 11 anos, várias séries artísticas, um podkopayeva na disputa, Vanessa Ferrari se mantendo entre as finalistas por mais um ano, Murakami com chances de uma redenção depois do 4° lugar em 2013... Muita coisa legal mesmo!

As finais começam amanhã com o individual geral masculino às 20h e Caio Souza na disputa. Sexta, 20h, tem individual geral com Thais Fidelis na disputa. Sábado 14h tem finais por aparelhos com Arthur Zanetti na final de argolas e domingo, mesmo horário, tem Thais na final de solo. Todas as finais com transmissão no SporTV.

Poderia ter sido um Mundial melhor para o Brasil? Sim, poderia. Mas optaram por menos atletas, então vamos ter que lidar com isso. As lesões também atrapalharam: esse poderia ter sido "O" Mundial da Flávia e da Rebeca. Francisco Barreto também poderia ter conquistado uma final, mas foi mais um ginasta acometido por lesão. Paciência.

Confira os resultados completos.

Post de Cedrick Willian
Foto: Ivan Ferreira / Gym Blog Brazil / MeloGym

Exclusiva GBB - Entrevista com Roger Medina e Thais Fidelis


Thais Fidelis e o treinador Roger Medina falaram com o GBB logo após o término das classificatórias femininas em Montreal. Confira!

THAÍS

GBB - No seu primeiro mundial, das três finais que você tinha chance de se classificar, você conseguiu duas (solo em 6° e individual em 17°). Qual a avaliação da sua estréia em mundiais?

TF - Eu achei muito bom num geral, porque foi a primeira vez num mundial, uma competição grande. Só esperava ter ido melhor na trave, mas erros acontecem. No geral foi bom.

GBB - Na trave teve uma demora muito grande pra sair a nota da ucraniana que se apresentou antes de você. Essa demora te atrapalhou ou desconcentrou?

TF - Não tirou a minha concentração porque já estou acostumada com demora de nota. Isso acontece em outros campeonatos, não foi só aqui. Sempre tento manter o foco ali na hora e não fico pensando nisso - que está demorando -; só penso na minha prova, o erro foi uma fatalidade.

GBB- Mesmo sendo uma estréia, você fez a prova mais difícil na trave, solo e paralela; no salto você não quis arriscar a dupla pirueta hoje. Podemos esperar alguns upgrades para a final do individual geral?

TF - Sim, na final tem um salto mais difícil e uma saída de trave nova que a gente pode colocar também. Depende de como forem os treinos.

GBB- Essa saída é o duplo twist?

TF – Sim!

GBB- Obrigado Thaís, parabéns pela sua participação!

TF – Obrigada!

ROGER MEDINA 

GBB – Como você avalia a competição da Thais, depois de uma semana tão difícil com a lesão da Rebeca e onde toda pressão acabou ficando pra Thais que, além de tudo, é uma estreante em mundiais?

RM – Foi satisfatório o que ela fez, nós trabalhamos muito pra isso, o objetivo da competição era acertar os quatro aparelhos independente dela entrar na final ou não. Muito difícil pra ela estar sozinha dentro de uma competição desse nível, talvez se tivesse mais meninas com ela aqui competindo essa carga em cima dela poderia ser mais aliviada. Não justifica ela errar, mas faz parte da ginástica. Ela fez uma paralela com muitas coisas novas, que ela não fazia, já é um passo bom! Conseguimos colocar paticamente tudo que ela treina na prova de trave... erramos, mas ela conseguiu reagir, fazer um bom solo e entrar na final. O salto eu optei por não fazer o salto mais difícil: o foco era a final dos dois aparelhos.

GBB – Pras finais (geral e solo) você vai tentar arriscar algo mais difícil?

RM – Na verdade, é um desgaste muito grande o que ela passou hoje aqui, super tenso, por mais que ela seja uma ginasta fria e tranquila... É uma estreia, onde ela compete sozinha, e só temos um dia de descanso antes da final. A manhã vamos descansar de manhã e treinar à tarde, então eu preciso avaliar como ela vai estar no dia da final pra gente ver o que realmente faz. O objetivo maior é que ela tenha essa experiência, e se ficar em décimo nono ou em sétimo no individual geral pra nós não faz diferença em nada. Queremos que ela tenha uma boa competição, segura, e essa experiência é o mais importante pra ela nesse momento.

Exclusiva GBB - Entrevista com Caio Souza e Arthur Nory


O GBB entrevistou Caio Souza e Arthur Nory logo após a competição de hoje. Confiram!

CAIO SOUZA

GBB - Apesar da queda no último aparelho a sua competição foi positiva, qual a avaliação que você faz?

CS - Foi tranquila, infelizmente veio a queda na barra fixa, mas a gente tem um dia para poder corrigir o erro e ajustar o que for necessário. Estou feliz com a minha competição, segundo mundial, primeira final, agora é só curtir a final.

GBB - Em relação a uma final por aparelhos, você tinha mais esperanças na paralela?

CS - Sim, eu tinha esperança na paralela. Eu estava numa expectativa de um rodízio que eu seria o último a competir, então eu teria um tempo maior de descanso entre uma rotação e outra e isso faz uma diferença; porém, ontem a noite eu descobri que eu seria o primeiro, mas não vou colocar a culpa nisso, eu tive errinhos e tenho consciência disso, poderia ter ido melhor.

GBB - Qual a sua expectativa pra final?

CS - Todo mundo me fala: "ah você tem chance de final", daí depois "tem chance de medalha"; eu só sei que eu quero competir bem. Quero chegar aqui na competição de quinta-feira e fazer o meu melhor, sair feliz com o meu trabalho, fazer melhor do que o que eu fiz hoje... isso é o que vale! Se eu estiver em primeiro ou 24° competindo bem, é o que está valendo.

ARTHUR NORY

GBB - Arthur, como sempre, você teve uma das melhores notas de execução da competição, seria a quarta melhor execução entre os finalistas, faltou uma nota maior de dificuldade (o suíço Pablo Braegger tinha 1 ponto a mais de nota D). A sua estratégia era realmente fazer uma série mais simples e tentar ganhar pontos na execução pra entrar na final e arriscar a prova mais difícil?

AN - Eu tinha uma prova mais difícil, realmente eu diminuí a série pra ganhar em execução e pegar final, e na final é todo mundo igual, é onde eu poderia arriscar. Mas eu vacilei no final, não podia ter perdido os dois décimos no “healy”, enquanto eu estava fazendo a série eu pensei "no healy eu perco muito em angulação então eu não quero perder esses décimos", porque eles (árbitros) estão muito rígidos na barra, então eu quis buscar essa execução. Só que vimos que não adianta querer fazer só uma prova bem executada e não ter a dificuldade, hoje você precisa ter os dois. Achei o resultado justo, eu não fiz por merecer agora, mas vou voltar pra casa, levantar a cabeça e treinar mais.

GBB - Qual foi o motivo de não tentar o individual geral e focar no solo e barra fixa?

AN - Eu estava focando em finais que eu tinha chances de medalhas, e além disso eu ainda não tenho resistência suficiente pra fazer os seis aparelhos. No brasileiro eu fiz cinco aparelhos e quando eu comecei a fazer argolas já não estava conseguindo render. Solo e barra são os meus aparelhos mais fortes, então foquei bastante nisso, a preparação foi boa, eu estava treinando bem, mas infelizmente não deu certo, tem que aprender com os erros de hoje e melhorar.

GBB - Com relação a sua cirurgia você já está totalmente recuperado?

AN - 100% nós nunca estamos, ainda sinto dor no meu pé. O ombro, às vezes quando eu erro alguma coisa na barra, sempre dói. Nós aprendemos a lidar com isso, estou melhor do que estava antes.

Entrevista de Diego Aguiar
Foto: Ivan Ferreira / Gym Blog Brazil / MeloGym

O que esperar do Brasil em Montreal?


O Brasil chega em Montreal com apenas cinco atletas, metade da possibilidade máxima de envio de atletas para o Mundial. Foi uma boa escolha? Sinceramente ainda não dá para opinar sobre isso. A nova gestão da ginástica artística brasileira está empenhada em fazer cumprir um combinado restrito de seleção de atletas. E, na opinião dessa nova gestão, apenas os cinco selecionados possuem séries suficientes para competir em um Mundial de especialistas.

Caio Souza, Arthur Zanetti, Arthur Nory, Rebeca Andrade e Thais Fidelis foram os selecionados. Francisco Barreto também esteve dentro do seleto grupo mas se lesionou durante os treinos no Brasil. Flávia Saraiva, que ainda não havia sido selecionada mas que não tinha motivos para ficar de fora, também se lesionou. Daniele Hypólito também poderia estar dentro, mas acabou com um contrato para um reality show.

A esperança de continuidade do sucesso que a ginástica brasileira vem conseguindo nos últimos anos fica então nos ombros desses cinco atletas. Todos possuem habilidades e possibilidades que, se forem bem trabalhadas, principalmente a parte psicológica, podem acabar em bons resultados.

Caio Souza

O começo do ciclo de Caio Souza pode ser excepcional. Cortado dos Jogos do Rio, onde o foco era medalhas, Caio não perdeu a vontade de representar o Brasil e continuou treinando forte. Hoje é, sem dúvidas, o melhor "all-arounder" da seleção, tanto que vai ser o único representante do Brasil nessa prova. E as chances de continuar representando o Brasil até 2020 são grandes!

Com potencial para passar dos 85 pontos no individual geral, luta - e as chances são reais - para figurar no top 10 nessa final, o que seria o melhor resultado da sua carreira. Caio precisa na arena com muita garra, acertar o máximo que puder e deixar os erros para os outros. Ainda tem chances de final na paralela, onde tem uma série bem difícil e muita limpeza, podendo até ultrapassar os 15 pontos.

Arthur Zanetti

Para esse Mundial, uma excelente estratégia: focar apenas na série de argolas. Zanetti passou por uma cirurgia após os Jogos Olímpicos e não poderia ir para Montreal "perdendo tempo" com outros aparelhos. Desde 2009, Zanetti está presente em todas as finais mais importantes do Mundo - exceto pelo Mundial de 2015 -, e dessa vez não será diferente. O único obstáculo que Zanetti tem é ele mesmo, fora o tempo que ficou parado se recuperando da cirurgia. Esperar um ouro de Zanetti, nesse momento, é forçar um milagre de um atleta que provavelmente ainda não se encontra 100% como antes. Mas, mesmo assim, um pódio continua sendo possível.

Arthur Nory

Competindo apenas solo e barra fixa, aparelhos que são seus pontos fortes, Nory pode superar seu melhor resultado em Mundiais, que foi um 4° lugar na barra fixa no Mundial de Glasgow em 2015. Está com uma série surpreendente na barra fixa e com uma execução muito limpa. A série é difícil mas muito segura, e realmente coloca Nory como um forte concorrente à medalhas nesse aparelho. Vale a torcida para ele aqui! Arrisco dizer que essa é a maior chance de medalha da nossa seleção masculina em Montreal.

No solo, apesar de estar com uma série muito limpa, não tem nota D suficiente para bater de frente com os melhores como fez nos Jogos do Rio. Na ocasião, arriscou tudo que tinha, e Nory tem muito para arriscar. Mas, no início de um ciclo olímpico, o mais sábio a se fazer é segurar um pouco e não forçar além da conta. Assim pode figurar entre os oito melhores e, numa situação como a dos Jogos Olímpicos, conquistar uma medalha.

Rebeca Andrade

Rebeca pode ganhar os holofotes nesse Mundial. Sempre com muito potencial e uma pitada de azar, Rebeca já poderia ter conquistado muitos resultados na ginástica. Esse ano, quase teve um novo problema com lesão, mas conseguiu ser recuperar a tempo de, pelo menos, competir no salto sobre a mesa, aparelho onde possui chances reais de medalha em Montreal, e nas barras assimétricas. Com a média internacional mais alta do ano no salo (14.800), tem uma limpeza diferenciada com relação às outras saltadoras. Seus saltos são os mesmos com que Simone Biles medalhou nesse aparelho entre os anos de 2013 e 2015, e a execução, principalmente do lopez, é muito parecida.

Nas barras assimétricas tem boas ligações e alto grau de dificuldade. Não é favorita a uma final, mas ela pode acontecer. Fora isso, não há nenhuma notícia sobre uma série de solo, e a expectativa para que ela faça solo é alta: com seu solo mais simples, Rebeca se colocaria como uma forte candidata ao top 5 no individual geral, podendo realmente figurar no pódio dessa final. Provavelmente seria a única ginasta "all-arounder" a competir com um amanar esse ano, o que já a colocaria como uma das favoritas.

Sabe o que mais Rebeca precisa? De alguém que a convença do potencial que ela tem. Uma diretoria que a faça lutar para ser a melhor que ela puder! Espero que o Marcos Goto esteja indo por esse caminho. Rebeca nunca foi uma ginasta para apenas "passar bem" pelos aparelhos.

Thais Fidelis

Finalmente chegou o ano em que Thais entrou para a categoria adulta. Uma das juvenis mais esperadas para estrear em Mundias, é bem provável que não vá decepcionar: Thais tem chances de finais no solo, trave e individual geral. Aumentou a nota D de sua série de barras assimétricas - seu pior aparelho - e consegue boas notas D na trave, solo e salto. Espera-se que ela consiga saltar o yurchenko com dupla para aumentar ainda mais as chances de um top 10 no individual geral.

A maior chance de final e medalhas da Thais está na trave, aparelho onde já apresentou nota D 6,7! Com sequências acrobáticas de respeito e saltos de dança impecáveis, a torcida é para que ela fique em cima da trave. Sem quedas do/sobre o aparelho, as chances de finais são quase garantidas. Entrando na final, o foco é segurar o nervosismo e fazer uma passagem sem quedas. Dessa forma, tudo pode acontecer!

As classificatórias do Mundial começam amanhã e você confere todos os detalhes clicando aqui.

Post de Cedrick Willian

Foto: Ivan Ferreira / Gym Blog Brazil / MeloGym