• Entrevista - Diego Hypolito sonha com 2ª chance olímpica e ignora boatos de homossexualismo


    Diego Hypolito ainda se recupera da pior cirurgia de sua carreira – operou o pé esquerdo em outubro e só deixou o suporte das muletas de lado em meados de dezembro. E, mesmo sem retomar a rotina de treinos, o ginasta só pensa em uma coisa: disputar os Jogos Olímpicos de Londres-2012. Favorito em Pequim, o bicampeão mundial sucumbiu ao ficar em sexto lugar e, agora, já sonha com a segunda chance olímpica. Focado na ginástica, o paulista de 24 anos estranha o status de celebridade atribuído aos atletas, mas fala com naturalidade sobre o assédio sobre sua vida pessoal.

    Em meio aos compromissos profissionais e a dedicação à rotina familiar, Diego Hypolito encontrou tempo para receber a reportagem do UOL Esporte no apartamento do Flamengo, no Rio de Janeiro. O ginasta, aliás, deixará a propriedade do clube para realizar o sonho de morar com a família em um imóvel comprado por ele.

    Antes de levar os primos menores à praia, Diego Hypolito falou sobre carreira, conquistas, frustrações, cirurgias e objetivos. O ginasta tratou também do interesse da mídia em sua vida pessoal. O atleta do Flamengo revela que estranhou notícias sobre suas idas a festas e praia e demonstra tranquilidade ao falar de assuntos mais delicados, como boatos de homossexualismo – em abril uma foto ao lado do ex-BBB Serginho causou polêmica. Na ocasião, o próprio artista negou os rumores e afirmou que o bicampeão mundial é hétero.

    Você fez a cirurgia no pé esquerdo em outubro. Como foi e como está a recuperação?

    Diego Hypolito – Essa cirurgia eu fiz em função de algumas lesões que eu vinha sentindo desde 2005 e 2006. Eu vinha aguentando, sempre trabalhando no limite da dor, fazendo fisioterapia, procurando médico. Foi uma decisão em conjunto, porque tinham muitos fatores. Ela já estava me impossibilitando de treinar. Doía até para andar também. Procurei todos os médicos que tivessem especialização neste tipo de lesão no Brasil e infelizmente ninguém tinha tanta noção do que era essa lesão. Comecei a procurar fora do Brasil, por intermédio da CBG [Confederação Brasileira de Ginástica] e do COB [Comitê Olímpico Brasileiro]. Daí, encontramos o médico que me operou na Suíça. Nenhum atleta brasileiro teve essa lesão, eles ficaram com um pouquinho medo de me operar e fizeram lá. A cirurgia foi muito bem sucedida. A recuperação está sendo muito boa. Em janeiro vai fazer três meses de operação. Ainda sinto um pouco de dor. Voltei a fisioterapia um dia depois de operado para não perder a musculatura. Graças a Deus, a medicina está muito evoluída. Se tivesse feito essa lesão há um tempo atrás, os médicos não saberiam nem o que fazer. Estou tranquilo, com a cabeça boa, com uma boa equipe me envolvendo e lá pelo meio de janeiro ou início de fevereiro já vou voltar a fazer tudo. Vai ter um tempo bom para o Mundial.

    E a prioridade para 2011 é o Mundial? Vai disputar o Pan-Americano de Guadalajara, que é no mesmo mês do Mundial?

    Diego Hypolito – A prioridade é o Campeonato Mundial, que é em outubro no Japão. É uma competição pré-olímpica. Depois têm os Jogos Pan-Americanos, algumas etapas da Copa do Mundo e torneios que são por equipe que servem para preparar para uma possível classificação olímpica da equipe. Mas são dois objetivos diferentes. O principal, sem dúvida, é a classificação para a Olimpíada e ela só vem por uma única chance que é o Mundial do Japão. Os Jogos Pan-Americanos até devemos ir com a equipe principal, mas a prioridade é o Mundial, depois o Pan, que é pouco tempo depois.

    Com a lesão, você ficou de fora do Mundial de Roterdã, na Holanda. Como foi perder a competição? Você acompanhou pela televisão?

    Diego Hypolito – Foram cinco medalhas na temporada, estava em uma temporada boa. Consegui minha nota recorde de 16.100 no código de pontuação, mas em função da lesão fiquei fora do Mundial. Não acompanhei tão de perto os meninos e as meninas por causa da minha lesão, mas procurava me informar sobre a minha irmã [Daniele Hypolito]. Fiquei muito feliz com o desempenho deles, até porque a gente dependia disso para ir ao Mundial do ano que vem e, consequentemente, para as Olimpíadas. Fiquei um pouco decepcionado por conta da lesão e por querer voltar. Fiquei até um pouco mais emotivo do que as outras vezes.

    Já operou o pé e joelho direitos e o ombro esquerdo. A cirurgia no pé foi a mais difícil? Até por isso ficou mais emotivo?

    Diego Hypolito – Foi a lesão mais grave. Teve que fazer muita coisa, os cortes foram maiores. Todas as minhas outras cirurgias foram artroscopia. Tenho dois pinos no pé direito que ficaram 100%. Fiz artroscopia no joelho e uma no ombro em 2009. Desta vez, fiz enxerto nas duas pernas reconstruí todo o lado direito e esquerdo do pé, fora a artroscopia na parte da frente. Mexeu muito no meu pé. E quando você sabe que fez muita coisa e olha aquela cicatriz, você fala: ‘nossa, que feio’. Mas não é que feio, é bom porque a medicina evoluiu. Que bom que tem pessoas que puderam me dar a oportunidade de ter uma segunda chance. Porque muitas vezes fica na expectativa e nem tem a segunda chance.

    O Dragulesco, um dos seus principais rivais, foi mal no Mundial. Você acha que teria chance de medalha?

    Diego Hypolito – Era um ano em que eu estava bem e consegui notas muito altas. Mas é muito feio a gente ficar se lamentando. Eu não ganhei a medalha olímpica e podia ficar pensando: ‘se não tivesse feito isso, se aquilo’. Não. Eu errei. Vou ter outra oportunidade e tomara que dê certo. Estou fazendo o caminho mais correto para isso. Mas sobre o Mundial, eu não sei. Eu tinha possibilidades como todos os outros têm. Eu acredito no meu treinamento e agora estou pensando para frente e no que pode acontecer. Vou treinar muito para conseguir chegar bem no Mundial, para me classificar para a Olimpíada. Estou me dedicando e fazendo coisas que eu não fazia antes, tendo um psicólogo, um nutricionista, um fisiologista, médico, fisioterapeuta. Uma equipe muito grande que o COB e a prefeitura estão me dando a chance de ter. Estão comprando aparelhagem para o meu treinamento para as Olimpíadas. A gente está tentando e estou com o caminho trilhado para dar certo. Se vai dar certo ou não é um outro porém.

    Essa estrutura toda a que se refere é o Time Rio, né? Como está sendo o trabalho com você?

    Diego Hypolito – Começou este ano, há cerca de quatro meses. O COB e a prefeitura montam uma equipe que visa dar uma possibilidade a um atleta para buscar uma medalha olímpica. Então, eles cercam a gente com toda a estrutura possível para que eu tenha mais possibilidade de conquistar uma medalha. Se vai acontecer ou não, eu não sei. Eles me dão nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta, médico, fisiologista, todos os tipos de exame que são necessários para um desempenho melhor, equipamento de treinamento, um salário mensal para mim e meu treinador. Dá uma tranquilidade. É tão importante e satisfatório e me deixa despreocupado com o dia de amanhã, porque o grande problema do atleta é que ele vive com o dilema constante de ter ou não o patrocínio. Cito o próprio exemplo da minha irmã, que já está na seleção há tantos anos, tem 26 anos, foi ao Mundial esse ano, é campeã nacional e não tem patrocínio. Quando você tem algo que te proporciona algo mais e que te deixa tranqüilo, é muito bom.

    Mas justamente por ser uma aposta do COB e da prefeitura, você sente uma pressão a mais?

    Diego Hypolito – A aposta sempre exige uma cobrança. Mas estarem apostando em mim como estão fazendo, é uma oportunidade que eu nunca tive. É exatamente como os países de primeiro mundo fazem. Eles pegam os atletas e abraçam mesmo, sem consequência. Podendo conseguir a medalha ou não. E é isso o que eles me passam. Mas eu quero poder retribuir da forma mais adequada.

    Por que na ginástica é tão difícil conseguir patrocinador?

    Diego Hypolito – É uma concorrência pequena, porque não tem tantos atletas de destaque, só que você tem que visar uma maneira geral também. Eu vejo muito agora as pessoas apoiando atletas mais novos, que possivelmente possam estar em 2016, e esquecendo da geração atual. Na realidade, você faz um buraco. Você precisa apoiar quem vai para 2012, quem vai para 2016. É tão difícil, o atleta se sente tão sem apoio, que ele acaba se tornando um herói. Tem que conquistar primeiro a medalha para depois ter o apoio. E na realidade, o apoio tem que começar para te dar uma base e não esquecer quando ele fica mais velho. Porque atleta é uma profissão. Espero que até 2016, o Brasil pegue este gancho da Olimpíada aqui e se torne melhor em questões gerais. É uma grande oportunidade de crescer financeiramente e no esporte. Questão de patrocínio é uma coisa que desanima muito o atleta. Esta questão da provação, ter que provar que merece estar junto com alguém. A gente depende muito disso. Única e exclusivamente disso. Incentivo tem melhorado muito, mas isso tem que ser sempre contínuo. Não sei qual a forma mais adequada. Eu tenho exemplo em casa, minha irmã está sem patrocínio com 26 anos. Tem que tentar se focar mesmo assim. O cara tem que trabalhar e treinar por satisfação e prazer. Eu tenho prazer em disputar a medalha, do suor constante no treino. A gente tem vitórias pessoais constantes no treino, mas só veem quando sobe no pódio. Aí a gente chora, família chora, algumas pessoas choram também. O dia a dia é muito satisfatório, considero muito bom ser ginasta. Eu não tinha muito conhecimento sobre a ginástica, comecei por causa da minha irmã, que era quem era o foco principal. Eu me espelhei na minha irmã mesmo, porque infelizmente não tinham meninos de destaque na ginástica. E agora a gente vê que está mudando isso. É bonito. O esporte é bonito.

    Você acha que a ginástica cresceu no Brasil? Qual a sua importância na modalidade?

    Diego Hypolito – Por ter mais acesso ao meio televisivo, as pessoas criaram um certo interesse de ver e isso deve ter reflexo nas escolinhas. Mas não é por ser o Diego, a Daniele, a Daiane. As pessoas passaram a gostar da modalidade não por ser eu. Eu agradeço a Deus por fazer parte deste momento, passei por ali em uma época que a ginástica estava levantando, mas não significa que eu tenha feito a ginástica crescer. Eu só estava ali em um momento bom. Tenho que agradecer a ginástica, que me fez conhecer o mundo todo e ter uma cultura maior, educação, porque eu mudei minha disciplina por causa da ginástica. E tem a satisfação de saber viver com a superação diária. Por mais que caía, tem que tentar levantar de cabeça erguida. Porque quando você cai, não quer dizer que não vai cair de novo. A vida é cheia de altos e baixos. Mas eu sonho muito alto em termos de realizações pessoais. Ser medalhista olímpico, tudo o que você pensar eu estou sonhando, porque se eu não sonhar, eu não vou alcançar nada. Não existe ninguém que decide até onde vai o nosso sonho. Se você tem a oportunidade de fazer algo que você gosta, vai fundo.



    Você também passou a ser alvo de fofocas. Teve até uma foto sua com o ex-BBB Serginho (acima)...

    Diego Hypolito – As pessoas transformam um atleta em um artista e confundem as situações. Eu não fiquei chateado com a situação. Eu não tenho que ficar dando justificativa do que eu faço fora do treino. O que eu penso é que estou muito bem para a ginástica, quero me recuperar das minhas lesões. Sai naquele dia porque gosto muito da Preta Gil. Fui no show. Ele [Serginho] é uma pessoa como eu, estava lá no camarote. Veio falar comigo, foi muito legal por sinal, e falou que era meu fã. Mas cada um pode pensar o que quiser. Paciência. Não posso ficar me justificando por uma coisa que eu acho tão boba.

    Você ficou incomodado?

    Diego Hypólito – Eu fiquei um pouco preocupado. Porque a gente lida com a estética da ginástica, com a vida regrada. Não tava entendendo porque as pessoas me procuravam tanto. No meu aniversário, saíram milhões de fotos minhas no jornal. E coisas que eu acho tão fúteis. Nada contra, só que graças a Deus eu dependo sempre dos meus resultados. E eu estava fazendo bem até então. Só fiquei preocupado com a proporção que isso toma. Eu vejo muito isso com jogador de futebol. As pessoas transformam a vida assim como se fosse um furacão. E não é um furacão. Eu sou um ser humano como todo mundo. Saio, vou à festa. Achei engraçado. Vira e mexe eu via foto minha na praia. Não tenho problema algum com isso. Entendo o lado das pessoas de quererem conhecer o lado da vida pessoal de possivelmente famosos. Acabo tendo um pouco desta vida de artista mesmo não sendo.

    Desde então, você começou a se policiar para evitar paparazi ou notícias indiscretas?

    Diego Hypolito – Nunca apareceu nada demais. Não tenho que ficar preocupado com isso. Não vou deixar de ir à praia, sair e vou ser sempre simpático com qualquer pessoa. Já tive dificuldades muito piores. Eu tive dificuldade financeira. Tenho que ser tranquilo e não ligar muito para as coisas. Se entrar na pilha de bobeira que não faz parte do meu cotidiano, vou viver um mundo que não é meu, que é o artístico. Eu tenho que viver minha vida normalmente. Sendo dosado, fazendo as minhas coisas dentro do que eu posso fazer. Sair? Eu saio no sábado, mas se for me atrapalhar, pode ter certeza que eu não vou. Se tiver um evento em São Paulo para receber, mas for me atrapalhar no treino, infelizmente eu não vou poder ir. Eu tenho que ter esta balança para saber o que é certo e o que é errado para o meu esporte dar certo.

    Atualmente o que mais você quer na vida?

    Diego Hypolito – Incomparavelmente é chegar na Olimpíada como cheguei na outra e ter uma segunda chance. Quero ter uma segunda chance. Tenho que fazer as coisas da forma mais adequada para que eu consiga. Não é deixar de fazer as coisas, é ter limites. Eu sou um ser humano, eu faço o que todo mundo faz. Vou à praia. Mas quando começa a atrapalhar eu preciso ter consciência. Eu quero que meu sonho aconteça, vou abdicar de algumas coisas para isso.

    Em que a ginástica mais te decepcionou?

    Diego Hypolito – Nada é mil maravilhas. Tudo na vida tem problema. As coisas boas quando são maiores, apagam as coisas ruins. É como família. A gente discute muito, mas se ama acima de tudo. As pessoas até perguntam se a minha relação com a Daniele é assim tão boa. E é. O carinho que tenho por ela e pela minha família é verídico. Fomos muito pobres como ninguém imagina. Não faço disso uma vitória. Boa parte da população é muito pobre. Vi as dificuldades que minha mãe passava. Faço o máximo possível para dar o sustento para minha mãe. É difícil. Quando está em situação ruim, é difícil as pessoas estenderem a mão. Quando consegue algo existem muitas pessoas em volta. Essa é a situação ruim. Mas as boas suprem as ruins. Sou muito feliz e bem sucedido no que eu faço. E não é no lado material. A estrutura não pode romper, não pode mudar as raízes. Ninguém pode tudo e a fama é totalmente passageira.

    Fonte: Uol Esporte
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