• Negligências na relação entre treinador e ginasta


    A maioria dos treinadores conhecem bem seus ginastas. A relação se torna quase como que de pais e filhos, inclusive o trato passa até por questões pessoais. No dia-a-dia, o treinador, que geralmente convive com o ginasta desde a infância, sabe quando o ginasta está sendo relapso com o treino na tentativa de convencê-lo a fazer o que ele quer. Mas e quando o atleta fala a verdade? Vale a pena correr o risco de ser negligente?

    Aconteceu um caso recente e chocante na Rússia: a ginasta Ekaterina Sokova, de 16 anos, um talento brilhante que tinha idade para competir nos Jogos do Rio, acabou de ser operada para substituir uma das cartilagens da articulação do quadril. A cartilagem entre a cabeça do fêmur (osso da coxa) e o quadril simplesmente desapareceu. O impacto dos exercícios que Sokova executava era sentido diretamente entre os ossos, uma coxartrose. Sokova passou por uma cirurgia que minha avó fez quando tinha 68 anos.

    A ginasta cansou de se queixar de fortes dores e ser usada como exemplo de más atitudes dentro do ginásio. Enquanto estava longe de casa e do cuidado dos pais, mancava como "uma velha senhora" durante os treinos e mesmo assim não foi levada para exames. Taxada de mentirosa, no fim de dezembro, quando estava em casa, sua mãe não a deixou participar dos famosos treinamentos russos no Round Lake e a levou ao médico que colocou um fim na sua carreira, dando o diagnóstico e a notícia que Sokova tinha acabado para o esporte.

    "Machucou muito quando as pessoas se referiram a mim como um exemplo de ginasta com más atitudes, quando eles pensaram que eu estava fingindo dor, quando me perguntaram: "Você tem certeza que dói para andar? Você está treinando barras, saltando na cama elástica, forçando suas aberturas no treino de flexibilidade... Então por que dói quando você anda?" Muitas pessoas acharam que eu estava fingindo", desabafou a ginasta.

    Uma história famosa é a de Kerri Strug, ginasta americana que fez parte da equipe olímpica campeã dos Jogos de Atlanta em 1996. Tida como heroína por ser a última ginasta a saltar e ter conseguido cravar seu segundo salto (na época as ginastas realizavam dois saltos na final por equipes), a história não foi tão bonita quanto parece. Segundo entrevistas dadas após o ocorrido, Strug correu para seu segundo salto sabendo que algo muito grave tinha acontecido com sua perna durante a queda no primeiro salto. A motivação, que todos romantizam como sendo o ouro olímpico, na verdade foi uma provação pessoal de todas as vezes que foi taxada de preguiçosa, "reclamona" e mentirosa. Strug disse que sempre que reclamava de dor durante os treinos os treinadores diziam que ela estava exagerando. Reclamar da dor e o medo que sentiu ali, numa final olímpica, ia confirmar o que ela era para eles: uma ginasta de má conduta.

    Existem casos de atletas no Brasil que foram treinar doentes, por decisão própria ou não, e se lesionaram durante os treinos. Atletas proibidos pelos médicos e fisioterapeutas de treinarem continuam treinando à base de analgésicos. Gripes que viram lesões nos joelhos; náuseas e enjoos que viram rupturas nos ligamentos; viroses que viram cirurgias. Qual o preço treinadores/atletas estão dispostos a pagar por não escutarem/procurarem quem realmente possa resolver esses problemas? A negligência pode ter um preço muito alto!

    Talvez esse texto traga um momento de reflexão: que os treinadores duvidem mais de suas próprias convicções a respeito de seus atletas e que os atletas, quando adultos, saibam cuidar mais de si, e quando juvenis procurem e escutem seus pais que, apesar de estarem fora do ginásio, na maioria das vezes não fogem da responsabilidade com os filhos.

    Muitos treinadores, "carinhosamente", usam de persuasão com seus atletas, principalmente os juvenis, quando acontece uma lesão: "Mas você não vai nem tentar ajudar a sua equipe? Vai me deixar na mão agora, faltando uma semana? Depois de tudo que eu fiz por você?". Deve-se pensar que o atleta, quando o motivo é verdadeiro, também está chateado por perder a oportunidade de concluir um período de treinamento. Cabe ao atleta decidir se continua ou não e ao treinador ser mais coerente na argumentação. Na dúvida não há dúvida: ir ao médico e fazer exames coloca ponto final à questão e direciona para a melhor decisão sobre o problema. Sem contar que o treinador com bom senso deve interferir mesmo quando o ginasta decida por sim.

    A responsabilidade deve ser dividida nessa relação. Cada atleta é dono de si, conhece suas dores, seus limites e sabe quando algo está errado de verdade, podendo ser firme e decidir por não treinar e pedir atendimento médico. E cada treinador conhece também a sua responsabilidade com a saúde do atleta. Não deveria mais existir a cultura de ginastas descartáveis: o atleta pode e deve ser penalizado por não cumprir com suas responsabilidades com o clube, equipe e treinador, desde que o motivo por não conseguir cumprir com essas responsabilidades sejam verdadeiros, principalmente se relacionados à sua saúde. Saber identificar melhor a verdade e a mentira é o desafio aqui.

    A atual forma de avaliação para fazer parte da seleção brasileira coloca hoje um pouco de limites nessa situação. Atletas que mentem e não treinam por motivos fúteis acabam por não conseguirem atingir os objetivos necessários para entrar na seleção. Treinadores que forçam seus atletas além do limite perdem a oportunidade de terem seus clubes e trabalhos representados internacionalmente. Não existe mais vaga garantida, nem pra atleta e nem pra treinador. Agora, ambos tem que trabalhar em conjunto. Aquela história de "fulano não treina porque já tem a vaga garantida" ou "fulano não treina porque nunca vai ter chance" acabou. A vaga é de quem se esforçar e mostrar mais resultados, inclusive o treinador. Dessa forma, ninguém vai querer botar tudo a perder, forçando demais ou de menos.

    No fim das contas, a relação entre treinador e atleta precisa sempre ser verdadeira. Criar uma cultura dentro do ginásio de cuidado, empenho e trabalho em equipe fortalecem a confiança nessa relação. Assim o país diminui consideravelmente as chances de perder grandes talentos: seja por falta de disciplina dos atletas que mentem sobre a real gravidade de sua saúde, ou por lesões graves ocasionadas por treinadores que duvidam de seus atletas e os levam além do esforço.

    A partir de agora, as séries da talentosíssima Ekaterina Sokova só poderão ser vistas nos poucos vídeos disponíveis. Uma pena.



    Post de Cedrick Willian
    Foto: Divulgação
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    5 comentários:

    1. Eu li e gostei muito desse texto. Porém, fiquei em dúvida com relação ao 9º(nono) parágrafo: Não deveria mais existir a cultura de ginastas descartáveis: o atleta pode e deve ser penalizado por não cumprir com suas responsabilidades com o clube, equipe e treinador, desde que o motivo por não conseguir cumprir com essas responsabilidades sejam verdadeiros, principalmente se relacionados à sua saúde. Saber identificar melhor a verdade e a mentira é o desafio aqui. O correto não seria...Desde que o motivo por não conseguir cumprir com essas responsabilidades NÃO sejam verdadeiros, principalmente se relacionados à sua saúde. Como que iremos punir alguém por motivos VERDADEIROS?.

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      1. "contanto que". Ex:

        O atleta pode e deve ser penalizado por não cumprir suas responsabilidades (...) contanto que o motivo por não cumprir com essas responsabilidades sejam verdadeiros. Aí o atleta não deve ser punido.

        Entendeu? Rs.

        A única exceção para um atleta não cumprir suas responsabilidades e não ser punido é quando o motivo para não cumprir as responsabilidades é real, verdadeiro, principalmente se relacionado á sua saúde. Então não iremos punir alguém por motivos verdadeiros!

        Espero ter esclarecido.

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    2. Isso que é triste, a menina treina a vida toda, se esforça, passa por tudo para chegar ao auge da carreira e por uma incompetência do treinador ou de quem quer que seja é forçada a parar com um sonho, quem sabe de se tornar uma campeã olímpica, mundial, ou até mesmo competir internacionalmente sem ter lesão. No Brasil tem acontecido muito isso, a Thauany se não me engano,teve que se aposentar por algo parecido, quem não se lembra do sumiço repentino da khiuani, ou até mesmo a Lorrane, que vive lesionada. Coitada dessas meninas, será que vale a pena dar a vida por um esporte que ao mesmo tempo que é lindo e maravilhoso pode trazer consequências irreparáveis?

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    3. Uma pena mesmo.Isso me lembra também o caso da campeã mundial de 1979,Elena Mukhina que ficou tetraplégica.Até que ponto vale o sacrifício pela fama nos esportes?

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