• A nova gestão da ginástica


    Exemplificado historicamente como chegamos até aqui, continuo com os pensamentos a respeito da nossa ginástica. Claro que depois de quatro ciclos olímpicos de investimento em algo que não progrediu, uma mudança deveria ser feita. Nesse momento entra a nova gestão, na tentativa de democratizar a ginástica do Brasil, como no texto que escrevi no início do ano e está sendo lembrado por algumas pessoas 

    No início de 2018 foi feita uma semana de palestras no Comitê Olímpico Brasileiro, abordando várias questões sobre a ginástica do Brasil. Os participantes eram treinadores, fisioterapeutas, médicos e dirigentes de clube. Uma nova proposta foi apresentada, uma chance de mudança, e a insatisfação com o antigo sistema era generalizada.

    Como dito no outro texto, as mudanças começaram a ser feitas, e a primeira era, claro, acabar com a seleção permanente. Depois acabaram com a balança, adotaram o percentual de gordura ao invés do peso absoluto, deixaram as ginastas livres para comerem e colocarem a própria refeição no prato. Os treinadores agora podiam ter o trabalho desenvolvido em seus clubes e cumprirem as convocações e exigências dos camps. Quem cumpre o exigido é selecionado, e a seleção é feita pelo treinador chefe com base na ginástica apresentada no camp.

    A nova gestão está longe de ser perfeita, mas também está longe do ápice do trabalho. É injusto, três anos depois, nos primeiros passos de uma drástica mudança, querer que os resultados apareçam nesse exato momento. Os resultados vão ser percebidos a longo prazo, especialmente porque o investimento é feito no treinador e não no atleta. Os atletas passam mas o treinador fica. O investimento feito nos treinadores pode não surtir o efeito imediatista nos atletas que possui, mas sua nova geração poderá ser mais forte.

    No ciclo passado, no Centro de Treinamento, tínhamos excelentes treinadores, que conviveram de perto com a nata das ginastas e do que o Brasil tinha para oferecer de melhor. Treinadores que, inclusive, admiro muito: Francisco Porath, Keli Kitaura, Alexandre Cuia e Ricardo Pereira. Qualquer ginasta que apresentasse algum potencial de evolução no Brasil, se quisesse ter uma chance, deveria sair do clube e integrar a seleção permanente, longe do treinador do clube, da família e de casa. Um ambiente instalado sob muita pressão e controle, citado no post anterior.

    Se a seleção continuasse desse jeito, provavelmente os mesmos treinadores estariam lá até hoje. Talvez não porque eles quisessem ou concordassem com o que era feito, mas porque era a forma imposta. Histórias e histórias são ouvidas e contadas sobre a insatisfação de alguns e os desentendimentos com Alexandrov e as dirigentes, mas isso só eles podem dizer. É uma pena que não tenham ficado, eu realmente sinto muito e concordo que sejam uma grande perda para a nossa ginástica. Na balança da insatisfação, tiveram seus motivos para deixarem o país.

    O que mudou então?

    Se a seleção permanente trabalhou com quatro treinadores, segue a lista - que consigo lembrar - de treinadores que foram atendidos nesse ciclo e puderam entrar no CT: Walmy Júnior, Clara Davina, Bia Fragoso, Danilo Bornea, Renata Valente, Ângelo Sabino, Felipe Nayme, Cintia Nagata, Felipe Polato...

    Em números, os atendimentos ficaram assim:

    2017 - 4 camps, 11 atletas adultas, 14 juvenis, 6 treinadores e 3 treinadoras.
    2018 - 8 camps, 13 atletas adultas, 11 juvenis, 10 treinadores e 9 treinadoras.
    2019 - 9 camps, 10 atletas adultas, 7 juvenis, 4 infantis, 7 treinadores e 5 treinadoras.

    Todos esses treinadores e ginastas tiveram acesso às dependências do COB, aos médicos, fisioterapeutas, testes físicos, exames e tudo mais, além dos camps de desenvolvimento da ginástica, com Valeri Liukin, Nick Ruddock (Grã-Bretanha), Donatella Sacchi (ITA) e Tammy Biggs (EUA). Oportunidades estão longe de serem perfeitas, mas também estariam longe de acontecer dentro da velha gestão.

    O Centro de Treinamento hoje é aberto para uso. Para isso, basta mandar um e-mail semanalmente para o Comitê Olímpico e reservar um horário. O CT só não é liberado caso esteja havendo camps da seleção. Fora isso essa ressalva, equipes do Brasil estão liberadas para usar. Inclusive, Fluminense e Flamengo usufruem desse benefício com muita frequência, quase semanalmente.

    Voltando a falar sobre os treinadores que foram convocados, é importante dizer que houve resistência, de muita gente antiga, para que esses treinadores estivessem ali. Pessoas que estão usando a situação atual a seu favor, mas que no fundo achavam que esses treinadores não eram bons o suficientes. Muita disputa de cargo, dinheiro, poder e comando, onde a fala era egoísta e o olhar apenas pro próprio umbigo.

    Ainda temos treinadores bons no Brasil sim, mas que estavam aguardando uma oportunidade que agora chegou. Bia Fragoso, que está fazendo muito pela Chrystal Bezerra e que com certeza fará pelas outras que estão vindo, já que tudo que aprende com a Chrystal ela tem a oportunidade de repassar para as outras ginastas e treinadoras no seu clube. A mesma coisa acontece com Clara Davina, que além da Camila Almeida também começa a ver resultados na outra juvenil que possui. Isabel Barbosa, ginasta do Pinheiros, representando o Brasil e o clube no Campeonato Mundial, além do trabalho de seu treinador Danilo Bornea, que também já está construindo uma nova equipe de base em São Paulo junto com Felipe Polato. Felipe Nayme está indo para o sul-americano de seleções que duas meninas de São Bernardo.

    Outro treinadores também podem integrar o novo quadro. As oportunidades continuam em aberto! Espero que o trabalho consiga crescer mais e mais. Fora os citados aqui, temos muitos outros trabalhando espalhados no Brasil! Mesmo que ainda não sejam bons o suficiente para a formação de alto rendimento, assim como os atletas são lapidados e formados, estes também podem ser.

    Não existe uma ilusão de que as coisas serão maravilhosas a partir de agora, mas não há como negar a democracia do novo trabalho. Consigo enxergar e entender que o Brasil corre o risco de passar um tempo sem o sucesso que todos desejam. O trabalho da nova gestão está fazendo um corte profundo em grandes raízes velhas e entremeadas da nossa ginástica e precisamos de tempo, trabalho e paciência para essa ferida estancar. Espero que essa derrota na classificação olímpica sirva para todos como combustível de superação e crescimento.

    Continua no próximo post, sobre o trabalho do COB, CBG e clubes.

    Cedrick Willian
    Foto: Abelardo Mendes Jr / Rede do Esporte
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