• O começo da democratização da ginástica artística feminina do Brasil


    O último Camping de Treinamento da ginástica artística feminina, que aconteceu entre os dias 07 e 17 de janeiro, foi feito de forma bem diferente da que o Brasil vem experimentando. Inicialmente a lista de convocação já não era igual as outras, contendo nomes de ginastas de 11 e 12 anos entre as adultas que estiveram no Mundial. Treinadores de clubes "menores" e também com primeira convocação estavam na lista. O ano de 2019 pode marcar o começo da democratização da nossa ginástica artística feminina.

    Voltando um pouco atrás, todos sabem que o treinamento de alto rendimento do Brasil sempre esteve concentrado na seleção permanente e na antiga direção que, ao meu ver, também era permanente. Continuava sempre o mesmo esquema de convocações, treinadores, alimentação, peso, treinos, seleções e ginastas. Tudo era decidido entre um seleto grupo de pessoas que sempre estiveram ali. O conhecimento era altamente concentrado e restrito. Para as ginastas juvenis terem alguma chance de evoluir e estarem no cenário internacional, o treinador sem destaque do clube sem destaque deveria doar todo o seu trabalho para o centro de treinamento. Só assim a sua ginasta sem destaque poderia ter destaque algum dia. E assim terminou mais um ciclo olímpico: sem medalhas, muitas lesões, sem juvenis em desenvolvimento, ginastas adultas desmotivadas, treinadores desacreditados, depressivos e uma direção com várias justificativas para o fracasso .

    Com Valeri Liukin no comando como treinador chefe da seleção, a mudança inicial mais significativa foi que nos campings estivessem presentes ginastas juvenis com seus próprios treinadores, aprendendo e aplicando os conhecimentos e treinos que seriam desenvolvidos. Dessa forma, não teve como correr da responsabilidade de convocar os treinadores que, aliás, são o foco dessa vez: as ginastas passam, lesionam, desistem e não querem mais ser atletas, enquanto os treinadores ficam e são os donos do conhecimento. Poderão começar uma nova geração muito melhor do que a última que produziu, já que agora tem acesso ao melhor conhecimento que o Brasil pode oferecer e é amparado por um dos melhores treinadores do mundo.

    Precisamos entender aqui que um trabalho de curto prazo - Tóquio 2020, com todas as adultas - e outro a longo prazo - com novos treinadores e juvenis - está sendo feito. Não daria para anular um em função do outro, já que os resultados precisam acontecer também agora e continuar justificando o trabalho e investimento que está sendo feito. Por mais que o resultado do Brasil em Doha não tenha sido o mais feliz, é claro que as possibilidades que a seleção teve de conquistas nunca foram tão grandes. Quem aqui pensou que o Brasil lutaria pela prata numa final por equipes do Mundial? Ou que chegaria na Copa do Mundo de Cottbus um mês depois com resultados tão espetaculares?

    Entre as diferenças que contrastam com o antigo sistema, ainda podemos incluir uma série de outras coisas:

    - não existe mais balança para as ginastas se pesarem dentro do ginásio;
    - não existe ginasta "gorda" ou "magra" a partir de seu peso absoluto: existem testes de percentual de gordura com meta desejada e testes de força e habilidades específicas;
    - orientação nutricional;
    - serviços de buffet durante os campings com direito a suco e sobremesa (sim, sobremesa!);
    - as ginastas bebem água à vontade durante os treinos, afinal, a musculatura precisa ser hidratada para evitar lesões;
    - trabalho multifuncional orientado pra treinadores e clubes, que agora tem contato direto com os profissionais do Comitê Olímpico Brasileiro, que incluem médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, preparador físico e até um biomecânico responsável pela análise de movimentos para melhora da performance e prevenção de lesões.

    Dentro dessa nova forma de trabalho o camping se desenvolveu. Sob o olhar de Liukin, todos seguiam o quadro de treinos que ele tinha programado. O primeiro dia foi de avaliação médica e testes de habilidades específicas. Os demais dias foram de treinos em dois períodos, um de manhã das 08 às 12:30 e outro de tarde das 15:30 às 18:30. Sábado só de manhã e domingo inteiro de folga. Todas treinaram todos os aparelhos, todos os dias, com rotações de ballet e coreografia incluídas como se fosse a estação de um aparelho durante o treino. No final haveria uma convocação de 12 ginastas e 5 treinadores para o próximo camping, nos Estados Unidos, que incluiria a equipe juvenil que competirá no WOGA Classic no começo de fevereiro. A decisão seria tomada por ele, sem interferências da direção ou dos treinadores, que durante o camping inteiro acompanhou, corrigiu, interferiu e fez muitas anotações em um caderno particular.

    Perfiladas em frente aos treinadores, as ginastas conheceram, todas ao mesmo tempo e sem enrolações, quais seriam as convocadas para o camping e competição juvenil. Liukin anunciou, entre as adultas, Flávia Saraiva, Jade Barbosa, Rebeca Andrade, Lorrane dos Santos, Thais Santos, Carolyne Pedro e Isabel Barbosa (infelizmente Isabel Barbosa não conseguiu o visto americano em tempo de poder acompanhar a equipe); entre as juvenis, Christal Bezerra, Ana Luiza Pires, Julia Soares, Camila Siqueira e Josiany da Silva. Logo após, se reuniu com os treinadores e, antes da convocação, mostrou todo o plano de trabalho que tinha que ser continuado nos clubes, mesmo para as que não iriam para o camping. Algo muito importante que merece ser destacado: a importância e entendimento que naquela sala estava a equipe do Brasil. O pedido era para que todos os treinadores ali presentes fizessem o melhor que pudessem pela nação, apoiando uns aos outros em tudo que fosse necessário. Isso era o mais importante de tudo! Só depois anunciou as treinadoras convocadas Clara Davina, Caroline Molinari e Beatriz Fragoso para as juvenis e Francisco Porath e Iryna Ilyashenko para as adultas.

    Um reflexão: quando você iria pensar que um treinador americano seria treinador chefe do Brasil, faria uma convocação sem interferências e entre os convocados estaria duas ginastas de São Paulo e uma de Minas Gerais? Com treinadores de São Paulo e de Minas Gerais também convocados? Isso definitivamente não é mais do mesmo. Isso é o começo de uma democratização. A sensação é de que as portas estão abertas para quem se esforçar e buscar dar o seu melhor. Novos clubes e novos treinadores podem finalmente começar a aparecer no cenário da ginástica nacional e internacional.

    O Brasil viaja para o Camping na segunda-feira dia 28 e retorna no dia 10 de fevereiro. O camping termina com a competição da equipe juvenil no WOGA Classic como uma preparação para o Mundial Juvenil que acontecerá em junho na Hungria. E dessa forma diferente e nunca trabalhada no Brasil, fica a esperança de que o novo seja melhor e que a democracia da nossa ginástica sempre permaneça. Existem treinadores, clubes e ginastas que trabalham duro em seus ginásios e esperaram por muito tempo por uma mão de ajuda e um voto mínimo de credibilidade.

    Texto de Cedrick Willian
    Foto: Abelardo Mendes Jr / rededoesporte.gov.br
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