• Análise histórica da ginástica artística brasileira a partir da seleção permanente



    Sentindo, ouvindo, lendo e vendo tantas coisas, ficou difícil colocar as ideias no lugar. Não tenho mais tido tempo para escrever como antes, mas não consigo parar de pensar sobre a nossa ginástica, o que ela é e o que poderia ser. São muitos anos acompanhando nosso esporte, torcendo, incentivando, criticando, mas, acima de tudo, amando e querendo o melhor, que faltam palavras, textos e discussões para falar de um assunto tão complexo como o que vive atualmente a nossa ginástica. É preciso uma análise histórica de todos os nossos momentos até aqui, tanto da ginástica masculina como a feminina, dita e exemplificada. A melhor forma de fazer isso é escrevendo e lembrando que não sou o dono da verdade, mas a moderação da minha verdade é um serviço prestado à mentira, e isso não quero fazer.

    No começo da seleção permanente, se não me engano em 2002, o mesmo esquema de treinos foi oferecido para as duas seleções: a masculina e a feminina. Enquanto a feminina colhia os louros da vitória, com Daiane dos Santos campeã mundial em 2003, super cotada para ser campeã olímpica em 2004 (falhou) e ainda com a classificação olímpica da equipe em 2004, a ginástica masculina, que abdicou da seleção permanente, era vista como o patinho feio da ginástica do Brasil. Até a ginástica rítmica ainda se classificava para os Jogos Olímpicos e estava em finais olímpicas, enquanto a masculina não tinha nada. A justificativa de não estarem dentro do “esquema” era uma desculpa sempre ouvida como o fator responsável pela falta de sucesso do masculino.

    Não bastou Diego Hypólito ter conquistado 3 medalhas mundiais entre os anos de 2005 e 2007: o masculino agora era “bom só de solo” enquanto a feminina tinha uma all arounder medalhista mundial – Jade Barbosa – e a equipe se classificava para os Jogos Olímpicos mais uma vez. A ginástica masculina continuava trabalhando e tentando achar o próprio caminho. Daiane, sofrendo com cirurgias e lesões no joelho, falha na sua segunda tentativa de medalha olímpica e Diego falha também.

    Nesse momento os recursos acabam. Claro: quando resultado olímpico não aparece, o dinheiro é remanejado. O nome disso é política e dentro do esporte ela existe também. Dentro do Comitê Olímpico, cada esporte quer mais recursos que o outro; cada gestão esportiva quer cortar o pescoço da outra e, para isso, não existe argumento melhor do que uma medalha olímpica ou a falta dela. Todo fim de ciclo olímpico é a mesma coisa! Ou toda vez que acontece algo polêmico como, por exemplo, o caso do treinador Fernando Lopes.

    No ciclo 2009-2012, disseram que foi feita uma tentativa de sair da seleção permanente e que isso não funcionou. Na verdade, por conta do fracasso da seleção permanente, faltou grana mesmo pra sustentar e continuar o esquema permanente. O CEGIN não concordava e nem participava dos camps que aconteceram nessa época. Tudo ainda continuava na mão da antiga gestão e com peso nas costas das ginastas mais antigas, aquelas que sobreviveram aos treinos fechados e agora lutavam em seus clubes para continuar em forma, tanto física quanto técnica. Ficar no peso ideal sem a pressão da seleção permanente é difícil, não é mesmo? Afinal, agora as ginastas podiam comer mais do que três uvas no jantar.

    Sem renovação e motivados por alguma mudança, os treinadores dessa época suaram a camisa e merecem aplausos por terem continuado pós-seleção permanente. Consigo citar Ricardo Pereira e Adriana Alves, que ressuscitou a Adrian Gomes, uma ginasta que foi essencial nessa época. A sofrida classificação olímpica aconteceu, mas foi só no Evento Teste, mesmo que para uma participação extremamente discreta nas classificatórias de Londres 2012. Enquanto isso, a ginástica masculina, que sempre teve sua vivência dentro dos clubes, agora tinha uma medalha de ouro olímpica: Arthur Zanetti, campeão olímpico de argolas mesmo sem uma equipe completa nos Jogos. Zanetti – assim como Diego – conseguiu sua classificação olímpica com uma medalha no Mundial de 2011. O masculino subia um degrau a cada ano, confiando sempre que estavam no caminho certo. E agora, além do solo, tinham resultados em outro aparelho e o respeito de uma nação inteira.

    Nesse tempo, Francisco Porath, Alexandre Cuia, Keli Kitaura e Roger Medina, caminhavam na busca de novos talentos, construindo ginastas que hoje são o pilar da nossa seleção. Mas só foram capazes de fazer isso porque não faziam parte do esquema antigo da seleção permanente. Se estivessem dentro do esquema que se encerrou em 2008 nunca haveria a chance de descobrir as ginastas que temos hoje. Eles estavam nos clubes com elas e graças a eles não tivemos um buraco no ciclo 2012-2016.

    Com os Jogos Olímpicos acontecendo em casa, os investimentos voltaram e isso foi um prato cheio para a volta do que todos temiam. É justamente quando a seleção permanente volta, com a participação desses novos treinadores. Agora são eles que estão trancados no CT junto com todas as suas atletas. O trabalho nos clubes é consideravelmente diminuído sem a presença deles e começa tudo de novo. Poucas ginastas, poucos treinadores, pouco conhecimento difundido, pouca liberdade e muito controle sobre a vida de todos que fazem parte do esquema. Ninguém entrava nem saía. Era ali, fechado, sem a esperança de que um treinador ou qualquer outra ginasta de fora pudessem estar ali também, adquirindo experiência, treinamento e chances de representar o Brasil. Quem decidia quem entrava e saía eram as dirigentes da antiga gestão. O acesso da imprensa não existia. O Gym Blog Brazil nunca pisou dentro do CT durante a seleção permanente.

    Só que, como todos sabem, o fracasso também aconteceu. A classificação olímpica veio só no Evento Teste e, novamente, muitas lesões e nenhuma medalha olímpica. Sabe o que realmente aconteceu desde 2002? Ginastas eram agredidas moral e fisicamente por treinadores soviéticos; ginastas urinavam sangue porque não podiam beber água; copos de água eram comparados com uma barrinha de chocolate, porque 200ml de água pesam mais do que 30g de chocolate; jantar = 3 uvas; ginastas com bulimia; acesso restrito à família; atletas treinando na segunda até o peso voltar ao de sábado e enquanto não voltar não podia ir embora; ginasta do norte do país sendo ridicularizada na frente de todos; bullying; treinadores com depressão e mais algumas coisas que não convém comentar. Quem concorda com isso é desumano, não ama o próximo e não sabe se colocar no lugar do outro que viveu isso todos os dias de domingo a domingo.

    E dessa vez o masculino chegou no ápice do caminho começado lá em 2002. Conseguiram a classificação olímpica e finalizaram os Jogos do Rio 2016 com 3 medalhas. Optaram por sair fora do esquema, trabalharam, tentaram encontrar o caminho e conseguiram. Sérgio Sasaki, nosso melhor all arounder de todos os tempos, parou com a ginástica e, sinceramente, não fez diferença. A ginástica masculina continuou classificando a equipe, conquistando finais mundiais, medalhas e revelando novos talentos normalmente. Esse ano, a ginástica que era boa só de solo e ficou boa de argolas, agora também é boa de barra fixa! É de se admirar.

    O ciclo olímpico atual, com uma gestão nova e revitalizada, foi o primeiro ciclo em que algo diferente foi feito. Fico triste com o que aconteceu, especialmente pelas meninas que nunca foram aos Jogos Olímpicos, mas era claro que a classificação olímpica poderia não acontecer. Mais um trabalho foi o começado sem renovação, mas com a coragem de peitar o desconhecido. Nesse momento o feminino está exatamente como o masculino estava em 2002: recebendo duras críticas e sendo os patinhos feios da ginástica nacional. As críticas estão vindo especialmente das mesmas pessoas e são as que querem voltar ao comando. 

    Se essa volta acontecer, podemos desistir da integralização da nossa ginástica. Esse processo é doloroso e demorou mais de 10 anos de maturação para a ginástica masculina. Entretanto, está provado em quantidade de medalhas e títulos mundiais e olímpicos que é um caminho que realmente dá resultados. Estamos apenas nos primeiros passos da construção do novo caminho da ginástica feminina. É preciso aguentar as críticas e ter paciência, além de esclarecer que a nova gestão sofre o legado deixado pela antiga gestão. É bom lembrar que as duas últimas classificações olímpicas foram bem sofridas e não trouxeram resultados.

    Continua no próximo post.

    Cedrick Willian

    Foto: Thomas Schreyer

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